Apresentação

Durante séculos, uma corrente dominante no pensamento ocidental sedimentou uma tradição antropocêntrica, o mesmo é dizer um modo de perspetivar a realidade, com as suas crenças, normas, expectativas, etc., instituidora da autonomia do homem em relação à natureza. Como é, igualmente, sabido, esta corrente dominante não impediu (ou até, porventura, explica) a existência, em paralelo, de uma contracorrente: aquela pela qual, enfatizando-se o vivente sobre o logos e a ratio, o homem na natureza é pensado a partir do postulado de um mesmo e único solo ontológico.

Na nossa contemporaneidade, pautada pela expansão radical da Razão tecnológica, por migrações, pela globalização, para não falar na quebra de consensos ético-morais, a crise ecológica, sem precedentes, agudizou, seguramente, a tomada de consciência da fragilidade do vivente e, por extensão, a nítida perceção da interdependência de todos os habitantes da Terra-Archè. Razão pela qual nas últimas décadas se tem assistido a uma notória ênfase dos estudos sobre animais e animalidade em diversas áreas. Nomeadamente no domínio dos estudos literários, particularmente abertos a conceitos e propostas de leituras provenientes dosanimal studies e da zoopoética. Facilmente se percebe o alcance heurístico e hermenêutico de repensar criticamente o statu quo ontológico, em sede de existentes textuais literários, participando no grande debate contemporâneo em torno da redefinição do humano.

Assim, o propósito do Colóquio consiste em convidar os investigadores em literatura medieval a revisitarem o seu objeto de estudo à luz da relação humano-animal, encarada menos como fronteira e descontinuidade do que como limiar e continuidade. Francisco de Assis, convirá recordar, proclamava a comunidade das criaturas e a irmandade das espécies. Sem dúvida a mais ilustre representante da contracorrente do pensamento ocidental na Idade Média, a mensagem franciscana, cuja atualidade se afigura premente, é poderosamente inspiradora de renovados enfoques das animalidades na literatura e no imaginário medievais. É o caso, a título de exemplo, da alegorização antropomórfica dos animais nos bestiários, na heráldica, na astrologia, e das reconfigurações literárias destes simbolismos. Motivos e figuras como a caça (tipicamente centrada na perseguição da presa incapturável que atrai o caçador a um encontro erótico), o homem selvagem, a ondina, a mutação licantrópica, a zoofilia, configuram uma vasta e complexa problemática dos limiares humano-animal que merece ser (re)examinada com atenção por várias disciplinas.



Comissão Científica

Aires Augusto Nascimento (Universidade de Lisboa, FL)
Ana Paiva Morais (Universidade Nova de Lisboa e IELT, FCSH)
Anna Bognolo (Università di Verona)
António Ponte (DRCN)
Carlos Alvar (Université de Genève)
Carlos Carreto (Universidade Nova de Lisboa, FCSH)
Carmen Elena A. Canto (Universidad Nacional Autónoma de México)
Cleofé Tato García (Universidade da Coruña)
Cristina Almeida Ribeiro (Universidade de Lisboa, FL)
Elvira Rebelo (DRCN/MSMT)
Gloria Chicote (Universidad Nacional de la Plata)
Harvey Sharrer (University of California Santa Barbara)
Isabel Barros Dias (Universidade Aberta e IELT, FCSH)
Isabella Tomassetti (Università di Roma, La Sapienza)
José Manuel Lucía Megías (Universidad Complutense de Madrid)
Margarida Esperança Pina (Universidade Nova de Lisboa e IELT, FCSH)
Margarida Santos Alpalhão (IELT, FCSH)
Maria João Branco (Universidade Nova de Lisboa e IEM, FCSH)
Maria Ana Ramos (Universitat Zurich)
Maria Lourdes Soriano Robles (Universitat de Barcelona)
Maria Luzdivina Cuesta Torre (Universidad de León)
Maria Rosário Aguilar Perdomo (Universidad Nacional de Colombia)
Mariña Arbor Aldea (Universidade de Santiago de Compostela)
Vicenç Beltran (Università di Roma, La Sapienza)



Organização:

Cristina Álvares (CEHUM)

Sérgio Sousa (CEHUM)

Joaquim Loureiro (MSMT)



Secretariado:

Ana Maria Pereira (CEHUM)
Paulo Martins (CEHUM)



Centro de Estudos Humanísticos (CEHUM) da Universidade do Minho

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4710-057 Braga
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