Apresentação

Em Nous, animaux et humains, Tristan Garcia defende que a conceção do humano que subjaz ao humanismo moderno está a atravessar uma crise profunda, operada por duas tendências de sinal contrário. Por um lado, uma tendência interna que fragmenta o «nós» humano em múltiplos «nós» comunitários (etnias, religiões, raças, géneros, orientações sexuais); e, por outro, uma tendência extensiva que alarga o círculo do «nós» às outras espécies animais e até à totalidade do vivente.

Acresce o facto, não despiciendo, de ocorrer uma reformulação do humano por via do irrestrito triunfo tecno-digital. O mesmo é dizer, redefinem-se as fronteiras do humano em função de uma ressemantização do mundo a cargo da tecnologia. Neste sentido, o «nós» conecta-se, e de uma forma cada vez mais íntima e impercetível, com a tecnologia e os seus constantes (e inexoráveis, dirão alguns) devires.

Como se percebe sem custo, sobretudo se pensarmos no impressionante desenvolvimento, a título de exemplo, de realidades como a da Inteligência Artificial (IA), nunca fez tanto sentido como hoje refletir não apenas em torno da questão do humano, mas também, e decerto sobretudo, em torno do pós-humano.

Assim se compreende que nesta tendência que inclui na esfera do humano aquilo que o humanismo moderno dela excluía, não cabem apenas os outros seres vivos. Cabem também as máquinas, cada vez mais presentes na vida humana. Com elas os humanos mantêm formas várias e cada vez mais intensas de interação, de interdependência, de continuidade, de hibridação (ciborguização, biónica, robótica). O desenvolvimento exponencial das tecnologias, nomeadamente as biotecnologias, as nanotecnologias, a IA e as ciências cognitivas, contribui poderosamente para, como se disse, a redefinição e reinvenção do humano, através, por exemplo, da manipulação genética ou da digitalização das redes neuronais.

Com base nos avanços da tecnociência, cuja presença é marcante em áreas como a genética e a etologia, o pós-humanismo e correntes afins preconizam uma (trans)mutação real do ser humano capaz de ultrapassar decisivamente a sua extrema vulnerabilidade física e genética e as suas limitações cerebrais. O h+ declara a obsolescência do Homem tal como o conhecemos e proclama a aceleração da evolução através de uma reforma antropotecnológica das características da espécie que pode chegar ao abandono do corpo biológico e sua substituição pelo corpo mecânico ou pela vida virtual. O pós-humano é, pois, na senda da realidade aumentada, um humano aumentado, cuja juventude e vigor são altamente duráveis, que se (re)cria a si mesmo e à sua progenitura, que não tem doenças e se habilita à amortalidade (como diria um indefetível defensor da causa animal, Aymeric Caron, « La vie est ce qui ne veut pas mourir »), que controla as suas emoções e paixões, que tem uma capacidade acrescida para o prazer, e para a arte; enfim, um humano elevado à superior escala de excelência tecno-digital, cujos efeitos e cujo impacto ainda estão longe de serem discerníveis em toda a sua abrangência.

Tudo isto implica, como é evidente, uma drástica redefinição das fronteiras do humano no sentido da crescente perfectibilidade. E se algumas implicações dessa redefinição profunda do limiar humano afiguram-se nitidamente positivas e exaltantes (pense-se do emprego da IA ao serviço da saúde), outras não são sem suscitar ceticismo e reservas: poderá a pós-humanidade significar, em boa verdade, o fim daquilo que até aos nossos dias se considerou humano (um robot sapiens é humano) ? Por onde passa a linha ou o limiar entre perfectibilidade e monstruosidade? Ou, então, como equacionar a convivência da humanidade com formas superiores de hegemonia tecnológica? Ou, ainda, como pensar a humanização animal, levada a efeito pelos defensores da causa animal, tendo presente as manifestações crescentes de pós-humanidade baseadas não na fragilidade da vida, mas nos avanços da ciência e da tecnologia? Não será o pós-humanismo um novo antropocentrismo assente em postulados teo-tecnológicos como a invulnerabilidade e/ou a mutabilidade ilimitada da vida humana?

Organizado no âmbito do Projeto Limiar Homem/Animal/Máquina, este Colóquio Internacional pretende dar voz a algumas destas questões que podemos sintetizar nesta: como é que a ficção literária, fílmica e em BD configura os efeitos culturais dos avanços científicos? E isso de um modo assumidamente intermedial e interdisciplinar. Razão pela qual serão consideradas como prioritárias as comunicações capazes de focarem as figuras do pós-humano em dois(ou três) dos media em jogo – literatura, cinema, banda desenhada –, privilegiando as conexões entre eles.



Oradores convidados

Pedro Moura (UAlg, ESAD-IPL, CEC-FLUL, CEHUM)

Edwige Armand (Université de Toulouse – Jean Jaurès, Association Passerelle AST)



Submissão de propostas de comunicação

Para submeter uma proposta de comunicação, deverá enviá-la até ao dia 15 de janeiro de 2019 sob a forma de um resumo de 200-300 palavras, acompanhado de uma breve nota biobibliográfica, para o email: coloquioLCBD@gmail.com

As comunicações não ultrapassam os vinte minutos.

Os textos das comunicações serão submetidos à revisão por pares (peer review). Os que forem selecionados farão objeto de uma publicação.



Línguas de comunicação

Português, Francês, Inglês, Espanhol.



Comissão Científica

André Corrêa de Sá (Un. de Santa Barbara, Califórnia)

Anne Simon (EHESS)

Cândido Oliveira Martins (FacFil)

Charles Feldhaus (Un. E. Londrina)

Dorothea Kullman (Un. Toronto)

Eunice Ribeiro (UMinho)

Helena Pires (UMinho)

Iolanda Ramos (FCSH)

Irène Langlet (Un. Limoges)

José Almeida (FLUP)

Miriam Ringel (Un. Bar-Illan)

Nuno Simões Rodrigues (FLUL)

Pedro Moura (FLUL)

Xaquin Nuñez (UMinho)



Organização:

- Ana Lúcia Curado

- Cristina Álvares

- Isabel Cristina Mateus

- Sérgio Sousa



Centro de Estudos Humanísticos (CEHUM) da Universidade do Minho

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Informações


Calendário

15 de janeiro: data limite para enviar as propostas de comunicação (resumo de 200-300 palavras).

25 de janeiro: date limite para a resposta da Organização.

5 de fevereiro: comunicação do programa provisório.

31 de março: data limite para inscrição no Colóquio.

1 de junho: comunicação do programa definitivo.

13-14 de junho: Colóquio.



Taxas de Inscrição:

Inscrições até 31 de março de 2019: 80 euros.

Após esta data, o valor das inscrições sofrerá um acréscimo de 20%.



Pagamento por transferência bancária até 31 de março de 2019:

IBAN: PT50003501710016732263015

Swift: CGDIPTPL



Agradecemos o envio do comprovativo para o email do Colóquio: coloquioLCBD@gmail.com





Local:

Auditório do ILCH.



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Inscrição


*Todos os campos são obrigatórios.






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Programa

Programa: PDF



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Contactos

Cristina Álvares: calvares@ilch.uminho.pt

Centro de Estudos Humanísticos
Universidade do Minho
Campus de Gualtar
4710-057 Braga
Portugal

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